História do Corinthians: da fundação em 1910 aos títulos mundiais

A história do Sport Club Corinthians Paulista começa numa esquina do Bom Retiro, em São Paulo, na noite de 1º de setembro de 1910. Um grupo de trabalhadores do bairro — entre eles Anselmo Corrêa, Antônio Pereira, Carlos Silva, Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone — decidiu fundar um clube próprio depois de assistir à passagem do Corinthian Football Club, time amador inglês que excursionava pelo Brasil e encantava pelo estilo de jogo. O nome veio daí. O primeiro presidente, o alfaiate Miguel Battaglia, resumiu a intenção numa frase que o clube repete até hoje: o Corinthians seria o time do povo.

Essa origem explica boa parte do que veio depois. Nascido fora da elite esportiva paulistana da época, o clube construiu identidade na ideia de pertencimento popular, e não em patrocínio aristocrático. Foi uma vantagem simbólica que demorou a virar vantagem esportiva: os primeiros anos foram de campos improvisados, disputas amadoras e dificuldade de aceitação nas competições organizadas.

Os primeiros títulos e a consolidação

O primeiro Campeonato Paulista veio em 1914, poucos anos após a fundação, e mostrou que o projeto tinha viabilidade competitiva. As décadas de 1920 e 1930 trouxeram uma sequência sólida de títulos estaduais e transformaram o Corinthians em potência regional numa época em que o Campeonato Paulista era, na prática, a competição mais forte do país. Não havia liga nacional regular, e o calendário girava em torno dos estaduais e de torneios entre campeões.

Foi nesse período que o clube ganhou seu apelido mais duradouro. Em 1929, o jornalista Thomaz Mazzoni descreveu o time como um “mosqueteiro”, pela disposição de enfrentar adversários mais estruturados. O apelido pegou e virou parte da identidade visual e narrativa do clube.

O jejum e o 13 de outubro de 1977

Entre 1954 e 1977 o Corinthians viveu o episódio que talvez explique melhor a relação entre o clube e sua torcida: mais de 22 anos sem um título. O jejum se tornou tema de piada nacional, de crônica esportiva e de frustração acumulada por uma geração inteira de torcedores que nunca tinha visto o time vencer.

A espera terminou em 13 de outubro de 1977, na final do Campeonato Paulista contra a Ponte Preta, com gol de Basílio. O que se viu em seguida não foi apenas comemoração de título estadual: foi a liberação de duas décadas de expectativa acumulada. O episódio fixou na cultura do clube a ideia de que a torcida é parte ativa do resultado, e não plateia.

A Invasão Corinthiana de 1976

Um ano antes do fim do jejum, ainda sem títulos, a torcida produziu um dos maiores deslocamentos coletivos da história do esporte brasileiro. Para a semifinal do Campeonato Brasileiro contra o Fluminense, no Maracanã, dezenas de milhares de corintianos viajaram do estado de São Paulo ao Rio de Janeiro em ônibus, trens, caronas e carros particulares. O time venceu nos pênaltis e chegou à final.

A Invasão virou referência porque inverteu a lógica do mando de campo por iniciativa da arquibancada, e porque ocorreu sem que houvesse um título para comemorar. É um dos momentos em que a história do clube se confunde com a história do seu público.

A Democracia Corinthiana

No início dos anos 1980, o departamento de futebol do clube passou por uma experiência de gestão incomum: jogadores, comissão técnica e funcionários votavam decisões que normalmente cabiam apenas à diretoria — desde concentração e horário de treino até escolhas administrativas. O movimento, liderado por nomes como Sócrates, Wladimir e Casagrande, ficou conhecido como Democracia Corinthiana.

O contexto importa: o país vivia o fim do regime militar, e a discussão sobre eleições diretas estava no centro do debate público. O time levou a campo faixas e mensagens ligadas a essa agenda. No campo, o período coincidiu com os títulos paulistas de 1982 e 1983. Fora dele, virou um dos casos mais estudados de politização explícita de um elenco profissional no futebol brasileiro.

Os títulos nacionais e o primeiro Mundial

O primeiro Campeonato Brasileiro veio em 1990. Em 1995 chegou a primeira Copa do Brasil, e no fim da década o clube emendou os títulos brasileiros de 1998 e 1999. Foi a sequência que consolidou o Corinthians como vencedor em escala nacional, e não apenas estadual.

Em 2000, o clube venceu a primeira edição do Mundial de Clubes organizado pela FIFA, disputada no Brasil, com a decisão contra o Vasco da Gama resolvida nos pênaltis. O título tem peso histórico particular por ter sido o primeiro do formato.

2012: Libertadores e o segundo Mundial

A conquista que faltava veio em 2012. O Corinthians ganhou a Copa Libertadores da América sem perder nenhuma partida na competição, e no mesmo ano venceu o Mundial de Clubes ao bater o Chelsea na decisão. No ano seguinte, somou a Recopa Sul-Americana.

O ciclo se completou com os títulos brasileiros de 2011, 2015 e 2017, que somados aos anteriores levaram o clube a sete conquistas do Campeonato Brasileiro. A Copa do Brasil voltou em 2002, 2009 e 2025, e a Supercopa do Brasil foi conquistada em 1991 e em 2026.

A mudança para Itaquera

Durante décadas o Corinthians mandou seus jogos principais no Pacaembu, estádio municipal, sem casa própria de grande porte. Isso mudou em maio de 2014, com a inauguração da arena construída em Itaquera, na zona leste de São Paulo. O estádio recebeu a partida de abertura da Copa do Mundo de 2014 e outras cinco partidas do torneio, incluindo uma semifinal.

A mudança teve efeito que ultrapassa o esportivo: levou um equipamento de grande porte para uma região historicamente distante dos estádios tradicionais da cidade e reorganizou a rotina de deslocamento da torcida, hoje apoiada na estação Corinthians-Itaquera, a poucos minutos a pé da arena.

Ídolos que atravessaram gerações

Times grandes são lembrados por elencos, mas contados por nomes. Nos anos 1970, Rivellino representou a geração que sustentou o clube durante o jejum. Na virada para os anos 1980, Sócrates tornou-se a face pública da Democracia Corinthiana, combinando futebol de alto nível com articulação política — uma combinação rara em qualquer época. Nos anos 1990, Neto e Marcelinho Carioca ocuparam o papel de camisa 10 numa fase em que o clube voltou a vencer em escala nacional.

No ciclo mais recente, o goleiro Cássio se tornou o símbolo da conquista de 2012, eleito o melhor jogador do Mundial de Clubes daquele ano, e Ronaldo Fenômeno viveu no clube o último capítulo de uma carreira internacional, com a Copa do Brasil de 2009. São trajetórias diferentes que cumprem a mesma função: dar rosto a períodos que, do contrário, seriam apenas linhas numa tabela.

A profissionalização da estrutura

Boa parte da história recente do clube não aconteceu em campo. A construção de um centro de treinamento próprio, a profissionalização do departamento de futebol, a criação de programas de sócio-torcedor com centenas de milhares de associados e a chegada do estádio próprio mudaram a escala financeira da instituição.

Essa transformação tem duas faces. Por um lado, deu ao clube capacidade de disputar contratações que antes estavam fora de alcance e receita recorrente independente de campanha esportiva. Por outro, aumentou o custo fixo e tornou o equilíbrio orçamentário mais sensível a fracassos esportivos, porque uma eliminação precoce em copa passou a significar perda direta de receita prevista.

Momentos de crise e reconstrução

A história do clube também inclui o rebaixamento à Série B em 2007, seguido do acesso imediato no ano seguinte. É um episódio que costuma ser tratado como nota de rodapé, mas explica muito da cultura de urgência que marca a relação entre torcida e diretoria: a demonstração prática de que tamanho de torcida não protege ninguém da tabela.

O retorno em 2008 e a sequência de conquistas entre 2009 e 2012 mostraram o padrão que se repete na trajetória corintiana: períodos de reconstrução seguidos por ciclos vitoriosos concentrados. Não é uma linha ascendente contínua, e sim uma sucessão de ondas.

O que essa história explica sobre o presente

Duas linhas atravessam os mais de cem anos do clube. A primeira é a relação entre time e torcida como parte do próprio funcionamento do Corinthians, visível na Invasão de 1976, no 13 de outubro de 1977 e nas viagens internacionais de 2012. A segunda é a alternância entre períodos de domínio e períodos longos de reconstrução, que tornam cada conquista mais marcante para quem acompanha.

É por isso que acompanhar o calendário do clube tem peso próprio para o torcedor: cada rodada entra numa história que já estava em andamento muito antes. Para saber quando é o próximo compromisso, consulte a agenda de próximos jogos.